Esta conversa foi gravada para o WIR Innovation Podcast e está editada para leitura. As respostas são de José Carlos de Paula, CSO e co-fundador da WIR Innovation.
Quem é José Carlos de Paula
Sou engenheiro civil de formação. Depois fiz economia, MBA em negócios e um período em Cambridge estudando inglês para negócios. Ao longo da carreira fui juntando cursos de liderança, de desenvolvimento e de tecnologia, porque nunca me interessou ficar parado no que eu já sabia.
Minha mãe se separou do meu pai muito cedo e criou quatro filhos sozinha. Os quatro se formaram e seguiram carreira. Isso explica boa parte de como eu penso sobre trabalho.
A carreira em si tem uma lógica que eu escolhi de propósito. Ciclos de cinco a dez anos por empresa. Banco, seguro, saúde. Sempre entrando numa área nova quando o ciclo anterior já tinha me dado o que tinha para dar.
Comecei em banco porque precisava de dinheiro
Quando me formei eu já trabalhava, mas eram trabalhos para pagar os estudos. Fiz vários processos de trainee e passei em alguns. Dois eram bancos, e escolhi banco pela razão mais simples do mundo: pagava melhor e eu precisava.
Fiquei dois anos no programa de trainee e depois cresci rápido. Aos 24 anos eu já era gerente. Aos 28, morando no Rio, fui o único indicado da praça para um projeto que o banco chamava de Futuros Diretores. Éramos 30 pessoas do Brasil inteiro em São Paulo, com um ano e meio para desenhar produtos e receitas novas.
No fim do projeto, cada um assumiu uma diretoria. A minha foi seguros.
Seguros me encontrou aos 29 anos
Virei diretor responsável por todo tipo de seguro para os clientes do banco: vida, previdência privada, residencial, empresarial, automóvel. Não foi uma escolha minha, foi onde eu fui parar. E foi o que definiu os 25 anos seguintes.
Fiquei mais quatro ou cinco anos ali. O banco acabou sendo vendido, o mercado estava aquecido e eu recebi proposta de outros três bancos. Entendi que meu ciclo tinha fechado.
A década de refazer um banco
Fui para o Sudameris, banco franco-italiano, onde fiquei cinco anos. Entrei pela área comercial e de expansão de rede. Nos dois últimos anos me levaram de volta para seguros, e ali montei uma joint venture com a Generali, uma das sócias do banco na Itália.
Foi quando o Santander chegou ao Brasil comprando bancos. Um headhunter me procurou. Eles iam comprar o Banespa, o maior banco estatal em privatização na época. Topei.
No Santander fiquei dez anos e passei por quase tudo. O banco tinha comprado cinco bancos, incluindo um maior do que ele próprio, e precisava se refazer inteiro. Identidade nova, e todos os sistemas legados tinham que virar um só. Cinco bancos tinham que virar um.
Fui diretor comercial, depois diretor de produto, depois voltei para seguros. Quando o banco decidiu vender 51% dos produtos não-core e ficar com 49% em joint venture, fui destacado para conduzir a operação. Vendemos para a Zurich e eu fiquei como CEO da corretora.
Oito anos em saúde, o mercado que eu nunca tinha conseguido tocar
Cumpri o no compete, fiquei em alguns conselhos, e em 2014 o Bain Capital chegou ao Brasil para investir em saúde. Foram cerca de US$ 1,5 bilhão para adquirir, consolidar, abrir capital e depois sair via comprador estratégico. Foi o que virou o Grupo NotreDame Intermédica.
Saúde era a única peça que faltava na minha carreira. No banco a gente tinha conseguido lançar odontologia, mas saúde nunca. Era complexo demais, particular demais, e gerava atrito demais com o cliente. O banco sempre evitou.
Foi espetacular justamente por isso. Era um mundo diferente e eu tive que aprender do zero.
O projeto durou exatos oito anos: aquisições, IPO, follow-on e a fusão estratégica no fim. Éramos 12 executivos. Quando o fundo decidiu sair, liberou todo mundo do contrato, porque ia manter só 5% e uma cadeira no conselho.
Os novos controladores me pediram para ficar mais um ou dois anos e implantar o projeto de sinergia que eu tinha ajudado a desenhar durante o ano de espera pelas aprovações do CADE e da ANS. Eu não queria voltar ao formato antigo. Deixei de ser acionista, deixei de ser estatutário e passei a prestador de serviço, para não correr risco. Fiquei mais um ano e meio e saí.
Depois disso ainda passei um ano e meio na Athena Saúde, a holding de saúde do Pátria Investimentos. Dos três mandatos que me deram, executei dois em menos de um ano: consolidar seis aquisições numa estrutura única e refazer o posicionamento de marketing, que estava fragmentado em nomes diferentes. O terceiro era expansão. O fundo decidiu não investir por causa da alta de juros. Sem projeto novo, não fazia sentido eu ficar. Pedi renúncia, fiz a transição e saí em 2025.
Hoje eu invisto e sento em conselhos. Sou investidor-anjo numa traveltech que funciona como um marketplace de guias locais e já opera em mais de 110 países. Estou no conselho de uma empresa de tecnologia para o front-end de vendas na área de saúde, e no de uma operadora de cartão de desconto em saúde, fora da regulação da ANS, com mais de 1,1 milhão de beneficiários e telemedicina em toda a base. Também montei uma consultoria de saúde com um sócio, onde fico só na parte estratégica.
Cinco coisas que me definem
Relacionamento. Consigo construir pontes com pessoas, e isso abriu praticamente todas as portas da minha carreira.
A segunda é governança. Trabalhei a vida inteira em multinacionais e em bancos, ambientes obcecados com isso, e acabei ganhando uma régua bem clara do que é certo e do que não é.
Gosto de aprender. Não aceito o que já vem pronto. Questiono para entender, porque quem aceita sem questionar aprende menos.
Influência, mas por doação. Consigo influenciar decisões sem nunca esperar algo em troca. Doo tempo e experiência. Funciona no trabalho e funciona em casa. Tenho três filhas, todas casadas, e criei o que chamo de confraria dos genros. Fico perto deles, ajudo onde posso, e eles me devolvem o oxigênio que eu preciso para me renovar.
E sou pragmático na execução. Se acredito, vou até o fim. Se descubro no meio do caminho que não era aquilo, sei virar a chave e parar.
Se eu tivesse que escolher uma só, escolho relacionamento. É a que sustenta as outras quatro.
As pessoas que me formaram
Minha mãe, em primeiro lugar. Ela tem bastante idade e continua me ensinando.
Minha esposa, que eu conheci aos 13 anos. Ela foi o contrapeso da minha vida. Enquanto eu puxava demais para um lado, ela equilibrava o outro. Teve hora em que ela sumiu para me dar espaço e hora em que se posicionou para me segurar.
Fora da família, tive dois mentores de verdade. O primeiro foi Odilon Paulo Martins, no início da carreira. Ele descobriu em mim habilidades que eu ainda não enxergava e me colocou no lugar certo. A gente às vezes insiste em fazer uma coisa para a qual não está preparado, por falta de perfil ou de competência, e não percebe. Ele percebia. Trabalhamos juntos alguns anos e ficamos amigos por muitos outros.
O segundo foi Nilo Carvalho. Era meu par no banco, muito focado e muito pragmático. Anos depois, por coincidência, ele virou meu chefe no projeto do Bain Capital. Não foi ele quem me contratou, mas fiquei feliz de reencontrar. Continua meu amigo até hoje.
Como referência distante, Steve Jobs. Não por concordar com tudo, porque ele fazia coisas que não eram boas. Mas era disruptivo de um jeito que mudava a régua. Sem ele, do jeito dele, a Apple não seria o que é.
Fora do trabalho
Três coisas ocupam minha semana. Família, sempre. Trago para dentro de casa todo mundo que eu puder, porque quem está bem em casa tem chance de estar bem no resto.
Cuidar do corpo é a segunda. Já joguei tênis, futebol e basquete. Hoje jogo menos, por causa de um problema no ombro, mas caminhada e corrida entram na semana no mínimo três vezes. Teve época em que eu não consegui manter isso, porque o mundo corporativo é cruel com o seu tempo. Hoje eu mantenho.
E a terceira é ter um projeto. Eu não consigo viver sem um. Quem não tem projeto fica com a vida vazia, pelo menos no meu caso. Tem gente que se satisfaz com um. Eu preciso de mais, e falo isso abertamente. Se eu não tiver, eu não fico bem.
Por que sair do mundo corporativo e construir do zero
Fui 90% executivo de multinacional a vida inteira. E sempre quis montar alguma coisa do zero. Não do zero colocando dinheiro, isso eu já fazia como investidor. Do zero atuando.
Conheço o Nicholas há bastante tempo. Quando saí do banco, entrei no conselho da corretora que ele tinha montado com outros três sócios. Ele precisava de mentoria e de estrutura. Ajudei a criar governança e limites claros de responsabilidade, e a gente saiu visitando praticamente todos os CEOs de seguradora da época para trazer credibilidade. Ficamos amigos e nunca nos perdemos de vista, mesmo seguindo caminhos diferentes. Viramos meio conselheiros um do outro.
Ano passado os astros se juntaram. Ele estava saindo de um projeto, eu estava me desligando do meu, e a gente sempre teve vontade de fazer alguma coisa junto sem nunca ter tido a janela. Ele apareceu com a ideia de trabalhar com inteligência artificial.
Isso me pegou em cheio. Sempre gostei de tecnologia e estava querendo me aprofundar em IA, mas no mundo corporativo o tempo não é seu. É da empresa. Você doa 24 horas do seu dia. Eu conseguia achar brechas, nunca profundidade.
Conversei com o Felipe, que eu já conhecia, e com a Amanda, que eu sabia quem era mas não conhecia pessoalmente. Ele tinha acabado de voltar de uma viagem para conhecer o projeto da Mahway. Topei.
A gente começou a WIR em outubro ou novembro do ano passado, antes mesmo de a holding da Avante estar constituída. E antes de tudo o que está acontecendo hoje estar acontecendo.
O que essa onda de IA tem de diferente
Em todos os projetos de que participei eu levei a tecnologia disponível na época. No Santander havia muito investimento em tecnologia e eu conseguia simplificar processo de venda com o que existia. Mas ali era entregar uma ferramenta para alguém usar.
Em saúde foi diferente. O mercado de saúde é manual do começo ao fim, gente escrevendo à mão, e eu me permiti fazer uma revolução: zerar tudo e digitalizar. Não tinha IA como tem hoje.
A diferença da IA é que ela não vem para fazer mais do mesmo. Ela vem para tirar de você tudo o que é replicável e devolver o que só o ser humano faz, que é decidir. O subscritor que precifica e aceita risco vai fazer o trabalho dele de verdade, em vez do trabalho manual que faz hoje. E dá para chegar lá por camadas, via API, sem mexer no core.
Eu vi passar tudo. Trabalhei sem internet, usei fax e máquina de escrever. Depois veio a internet, a rede social, o 5G, a nuvem. Cada uma dessas mudou alguma coisa. A IA chega somando tudo isso numa velocidade e num escopo que não têm limite claro.
Por isso eu acho que a minha geração, se souber aproveitar, sai na frente de quem não viu as ondas anteriores.
A IA não é uma onda que você fica olhando da areia para ver quando entra. Ou você surfa ela inteira, ou você não surfa.
Tem muita gente entrando na onda só porque todo mundo está entrando. Isso não funciona. Se o líder não entender que a IA tem que estar na decisão dele, nos liderados dele e na cultura da empresa, ele vai ficar empurrando projeto, gastando dinheiro e não vendo retorno. IA tem que nascer na cultura da pessoa antes de virar sistema.
Na WIR isso ficou claro quando fomos validar os produtos. Fizemos mais de 20 visitas para testar o que estávamos construindo. Uma coisa é o que a gente acha. Outra é o que o cliente sente do outro lado. Eu já senti aquela dor, então eu sabia. Mas eu precisava que ele validasse.
O legado que eu quero deixar
Seguros está uma onda à frente de saúde no Brasil, e banco está uma onda à frente dos dois. Eu peguei a digitalização dos bancos em cheio, e isso foi sorte de timing tanto quanto qualquer outra coisa. Hoje os bancos brasileiros são referência mundial. Seguros veio depois. Saúde ainda tem muito o que acontecer.
O que eu quero deixar é conhecimento. Em toda visita, toda reunião com gente do mercado, eu faço uma doação espontânea. Não tem uma conversa em que eu não devolva alguma coisa do que aprendi.
Muita gente construiu carreira e se formou em coisas que talvez não existam mais daqui a pouco, e ainda não parou para pensar nisso. Ajudar essas pessoas a mudar o mindset é o trabalho. Isso cria credibilidade e reputação, e as pessoas passam a procurar você sozinhas.
Contratei muita gente ao longo da carreira e fui mentor de turmas de trainee no banco e no projeto do Bain. Vários deles hoje estão em posições de liderança. Toda vez que publico algo sobre IA no LinkedIn aparece alguém desses querendo conversar. Isso já está acontecendo, e é a parte de que eu mais gosto.
Eu mudei de cabeça. Podia estar aqui pensando igual ao passado, e não ia dar certo. Se eu consegui mudar, com a bagagem que tenho, quase todo mundo consegue.
Leia também
- Por que MGAs são a ponta da lança da IA em seguro
- O custo invisível do straight-through processing mal feito
- Manifesto WIR Innovation
Perguntas frequentes
Quem é José Carlos de Paula?
José Carlos de Paula é CSO e co-fundador da WIR Innovation, plataforma de IA para o mercado segurador. Engenheiro civil de formação, com economia e MBA, construiu uma carreira de quatro décadas em três setores: bancos, seguros e saúde. Foi diretor de seguros aos 29 anos, passou dez anos no Santander, foi CEO da corretora do banco após a joint venture com a Zurich, e depois oito anos como executivo no Grupo NotreDame Intermédica, a plataforma de saúde do Bain Capital no Brasil.
Qual é a experiência de José Carlos de Paula no mercado de seguros?
Ele entrou em seguros aos 29 anos como diretor responsável por vida, previdência privada, residencial, empresarial e automóvel na operação de bancassurance de um banco brasileiro. Depois montou uma joint venture de seguros com a Generali no Sudameris, e no Santander conduziu a venda de 51% dos produtos não-core para a Zurich, assumindo em seguida a presidência da corretora do banco.
O que José Carlos de Paula fez no setor de saúde?
Em 2014 entrou no projeto de saúde do Bain Capital no Brasil, que se tornou o Grupo NotreDame Intermédica: um aporte de cerca de US$ 1,5 bilhão para adquirir, consolidar, abrir capital e sair via comprador estratégico. Ficou oito anos, passando por aquisições, IPO, follow-on e a fusão final. Depois liderou por um ano e meio a consolidação da Athena Saúde, holding de saúde do Pátria Investimentos.
Por que José Carlos de Paula cofundou a WIR Innovation?
Ele conhecia Nicholas Weiser há anos, desde quando integrou o conselho da corretora que Nicholas havia montado. Em 2025 os dois estavam saindo de projetos ao mesmo tempo e decidiram construir algo juntos em inteligência artificial aplicada a seguros. A WIR começou a operar antes mesmo de a holding da Avante estar formalmente constituída.